Espinhos no Ninho

Título do artigo: Espinhos no Ninho

Estamos vivendo uma época em que os filhos prolongam a adolescência até a faixa dos trinta anos. Isto é bom ou ruim?

 

Conta a lenda que as águias constroem ninhos gigantes, com mais de um metro de diâmetro, juntando madeira e espinhos de diversos tamanhos. Os ninhos são usados por gerações destes pássaros e seriam bem desconfortáveis se não fosse um detalhe muito importante: as águias cobrem os espinhos do ninho com a plumagem retirada do próprio corpo.

 

Neste ninho, os filhotes serão protegidos e alimentados por um bom tempo. cercados de cuidados. Não existe uma única razão para que eles abandonem conforto daquele ambiente limpo, macio, quentinho e com comida chegando na porta pelo serviço de delivery.

 

A vida boa só é interrompida quando a mamãe águia percebe que eles estão prontos para voar. Os especialistas da National Geographic já registraram que, esgotadas as opções de diálogo, os pais resolvem tomar uma medida drástica: retiram a plumagem do ninho deixando aparecer a madeira pontuda e altamente resistente da qual o ninho foi feito reduzindo a zero o nível de conforto dos filhotes.

 

Sabe o que acontece então? Nada. Os filhotes preferem o ninho cheio de espinhos a se arriscarem num voo experimental a partir do penhasco onde se encontram. Novamente os adultos entram em ação e jogam os filhotes em queda livre observando o seu desespero e resgatando-os da morte certa quando percebem que cansaram de bater as jovens asas.

 

O exercício se repete até que os filhotes tenham a segurança de que o voo é supervisionado e que é possível imitar os pais para voar sozinho.

 

Me lembrei da águia um dia destes quando um cliente de São Paulo estava descrevendo sua família na primeira sessão do coaching de preparo para a aposentadoria. Lá em casa somos eu a patroa e duas crianças.

 

Como ele já passou dos sessenta, a primeira coisa que me ocorreu foi que ele estava brincando e que as crianças seriam na verdade dois cachorrinhos. Depois de perguntar o nome da esposa eu questionei o nome dos meninos só pra participar da brincadeira, mas fui surpreendido com a resposta.

 

Eram o Pedro e o João* com idades de 34 e 32 anos. Ambos formados em ótimas universidades, trabalho, renda acima da média e namorada. Além é claro, de uma suíte no apartamento do papai e a comidinha da mamãe todos os dias. Não podemos negar que é uma vida muito interessante.

 

E porquê eles não deixam o ninho? As causas são muitas, desde a condição econômica privilegiada até a síndrome de Peter Pan, passando pelas centenas de opções profissionais que acabam prolongando os estudos para mais de um curso superior.

 

Depois de uma ou duas faculdades, vários cursos complementares e de pós-graduação, é comum vermos estes jovens chegando aos trinta anos ainda confusos sobre o que querem da vida profissional. Se somarmos o fato de que algo semelhante pode ocorrer também na vida sentimental de muitos deles, estará formado o quadro perfeito para que não abandonem o ninho.

 

Quando contei a história da águia meu cliente afirmou que já tinha retirado as plumas, mas o resultado foi o mesmo alcançado pelas aves: nenhum. Eles preferem o desconforto dos espinhos em terra firme ao voo solo num penhasco ameaçador.

 

Então eu fico me perguntando: isto é bom ou ruim?

 

É claro que cada um vive sua vida como quiser ou melhor dizendo, como puder viver. Não estou propondo um julgamento sobre o que é certo ou errado. Só refletindo sobre o fato para imaginarmos os desdobramentos na vida financeira da família.

 

A permanência dos filhos é uma oportunidade fantástica para fazerem poupança. Livres do custo de moradia e alimentação eles podem guardar grande parte da sua renda e comprar um imóvel à vista, evitando as altas taxas de juros praticadas em nosso país. Podem construir uma estratégia de investimentos e alcançar independência financeira para si mesmos.

 

Por outro lado, fazendo sua contribuição para o sustento da casa dos pais, eles geram um alívio interessante no orçamento de quem está prestes a enfrentar a diminuição da renda em função da aposentadoria.

 

Viu só? São dois aspectos positivos desta questão. Mas infelizmente não é isto que vem ocorrendo no  caso do meu cliente. As filhotes dele não contribuem com a manutenção do ninho nem estão aprendendo a voar, se é que você me entende.

 

Fiquei imaginando que isto é algo que precisamos falar com filhos menores. Uma educação para a independência que os leve a desejar o voo. Precisamos mostrar como é legal voar sobre a tempestade como só as águias são capazes. Neste voo está incluído o prazer da conquista pelo próprio esforço, o sabor de um sonho realizado ou uma meta alcançada.

 

Reconheço que não é tarefa fácil. As águias precisam tomar medidas extremas para ensinar esta lição. Cabe a cada um de nós encontrar uma forma de fazer o mesmo, através do diálogo e da redução gradativa do conforto que nossos filhotes desfrutam no ninho atualmente.

 

Isto faz sentido pra você?

Grande abraço,

 

Samuel Marques

Palestrante e Coach Financeiro