É débito ou crédito?

Enquanto o homem procurava a sua carteira, a moça do caixa fez aquela pergunta de sempre:

– É débito ou crédito, senhor?

 

Como é que alguns operadores de caixa conseguem olhar um ponto fixo onde nada está acontecendo e mesmo assim falar com o cliente, inserir o cartão no equipamento e apertar os dígitos do teclado, tudo sem olhar? E ao fim ainda exclamam com a maior naturalidade a palavra mágica que coloca outro cliente na frente dela:

 

– Próximo!

 

É uma linha de produção. O cliente é o novo parafuso que os caixas de supermercado apertam com a mesma destreza que demonstrou Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos”.

 

Mas desta vez a moça ouviu algo diferente. Já com a carteira na mão, o homem respondeu:

 

– É mérito.

 

A moça suspirou e levantou os olhos com ares de reprovação. Deveria ser mais um engraçadinho querendo fazer piada daquilo que não tem a menor graça.

 

– Como é? perguntou ela.

 

– Mérito minha filha. Esta compra é puro mérito. Eu trabalhei muito e agora posso usar o dinheiro que me deram para comprar o que preciso.

 

Ela sorriu.

 

Imediatamente o homem teve a boa sensação de ter sido útil. Este devia ser o primeiro sorriso da moça naquele dia. Já feliz por isto, ele sorriu de volta.

 

– É débito ou crédito, senhor? ela insistiu.

 

– É mérito.

 

O homem mexia na carteira e a moça esperava pelo cartão que aparentava ter dificuldade para sair de lá. Finalmente o homem retira um grupo de notas de cinquenta.

 

– Olha minha filha, eu estou comemorando hoje a minha primeira compra com dinheiro. Eu peguei um monte de cartões e sinceramente falando, não tinha a menor ideia do que era débito, nem crédito. Eu fui comprando, comprando, às vezes no débito, às vezes no crédito, mas eu não percebia que a coisa ia apertando pro meu lado.

 

A moça contava o dinheiro, o próximo cliente já começou a colocar suas compras na esteira do caixa e o homem não parava de falar:

 

– Esse negócio de débito, de crédito é muito complicado. Chegou uma fatura doida de cara, foi um desespero. Minha mulher me mostrou que podia pagar o mínimo, mas a próxima veio maior ainda e no fim meu nome foi parar no SPC.

 

A moça sorriu de novo enquanto conferia o troco e neste ponto da conversa, o próximo cliente já colocava suas compras mais devagar, interessado em ouvir o final da história.

 

– Pois é minha filha, 30 anos de trabalho sem nunca ter meu nome no SPC e agora veja só o que me aconteceu. Mas sabe o que eu fiz? Joguei fora os três cartões. Foi a melhor coisa  que eu já fiz. Agora não preciso mais responder sua pergunta de débito ou crédito. Minha resposta agora é mérito. Igual tem escrito nas medalhas: honra ao mérito, sabe? Tenho o mérito de controlar o meu dinheiro e saber quanto posso gastar no mercado ou nas lojas.

 

A moça entregou o troco e a nota fiscal mantendo o seu sorriso.

 

– Que bom que o senhor conseguiu. Parabéns. Eu, pra falar a verdade, nunca consegui colocar minhas contas em dia. Meu marido vive reclamando…

 

– Ah! Mas é fácil minha filha. Joga fora os seus cartões e veja as notinhas saindo da carteira. Não tem coisa melhor.

 

– Tá bom, eu vou tentar…

 

– Tenta mesmo. Outro dia que eu vier aqui eu vou perguntar pra você se deu certo.

 

O homem saiu e a moça ainda mantinha um leve sorriso no rosto. Voltando ao seu normal, disparou sem pensar:

 

– Próximo!

 

– Você vai tentar mesmo?  perguntou o novo cliente. Porque se quiser uma ajuda, tem uma planilha de finanças pessoais no meu site que você baixa gratuitamente…

 

 

 

Prof. Samuel Marques

Palestrante e Coach Financeiro